Anjos

Lauren

Post anterior aqui: Gregório.
Num reino de deuses e monstros, Lauren era um anjo, vivendo no jardim do demônio. Durante milhares de anos, ela viveu temendo a Deus e à ira do terrível que criara aquele lugar. Dizem que Tsafon, o criador do jardim, era apaixonado por Lauren e por isso a acolhera quando fora criada por Deus e dispersada pela batalha do início do Universo.
Todos os dias, apesar de Tsafon proibi-la, ela conversava com uma rosa oculta no jardim. A flor lhe fazia revelações sobre os planos de Deus e tudo o que acontecia num mundo não muito distante chamado Terra.
Certo dia Lauren foi informada que um demônio chamado Alastor chegaria ao jardim, pois fora banido por Deus após matar milhares de homens na Terra pela alma de um só. Antes de ir embora, a rosa pediu que Lauren arrancasse suas raízes para que o jardim secasse e suas raízes não se tornassem uma conexão entre Alastor e o mundo que ela tanto admirara.
Celestial Architect, de Victoria Goro-Rapoport
Celestial Architect, de Victoria Goro-Rapoport
Lauren arrancou a planta do solo e pôs-se a correr ao invés de voar, pois não queria ser notada pelo demônio, que certamente a impediria de fugir. Porém, o jardim já começara a secar e o céu em torno dele já não era mais coberto por nuvens que mantinham a luz do quente sol azulado longe das flores.  Ela já conseguia ver os portões dentre os arbustos secos, mas Tsafon já notara que algo estava errado, uma brisa quente passava pelos arbustos cada vez mais perto de Lauren. O anjo estava quase chegando ao portal quando algo a puxou para trás e a fez cair de costas no chão.
– Minha querida, para onde você vai? O que está acontecendo aqui? – perguntou Tsafon, em forma de brisa.
– Alastor está vindo! Temos que sair daqui! – disse o anjo se levantando.
– Alastor? Por que esse medo dele? Eu sou muito mais poderoso que ele. Meu anjo, eu já o derrotei antes.
– Tsafon, você não é o mesmo de antes. Apenas cuidou de mim e desse jardim tempo todo.
– Você sabe muito bem que não é assim que funciona! – disse o demônio irritado. – E isso não justifica o que você fez com o meu jardim! A minha rosa, você a matou! – e uma onda de ar quente passou sobre o anjo, deixando-a desnorteada.
– Foi um pedido dela! Ela me contou sobre Alastor e que precisamos sair daqui o quanto antes! Será que você não me entende?
– Não, eu realmente não entendo. Eu te protegi de tudo durante milhares de anos e agora você me desobedece dessa forma? Lauren, você não vai. – disse o demônio se materializando em sua frente.
Tsafon era um demônio do fogo, sua pele parecia queimada pelo calor irradiado do próprio corpo, seu rosto sempre exibia uma expressão triste com lágrimas de fogo vertendo de seus olhos, pois passara a ser considerado um traidor após devastar Atlântida, o reino de um amigo seu e agora também um demônio, em nome dos anjos e depois rebelar-se contra eles, fato que levou a sua expulsão do céu.
– Eu vou sim, Tsafon, você não pode me impedir! – disse Lauren se levantando.
– Fique. Foi uma ordem! – disse Tsafon pegando-a pelo braço e queimando-o ao seu toque.
Latejando dor, o anjo puxou o braço preso e saiu correndo em direção ao portão, mas o demônio ainda possuía forças suficientes para controlar o ar ao seu redor e o anjo não voava há milhares de anos, suas asas estavam atrofiadas. Lauren foi jogada contra uma moita de rosas espinhentas que fincaram sua carne produzindo uma dor insuportável nas suas costas manchadas de vermelho pelo sangue.
– Tsafon, por favor! Não faça isso, vamos embora daqui! – suplicou o anjo.
– Jamais! Este é o meu jardim e vou permanecer com ele! Inclusive você! – ameaçou o ser das trevas erguendo-a no ar e apertando seu pescoço. – Nem que seja morta! – e começou a estrangulá-la.
As mãos fumegantes do demônio ferviam em seu pescoço, mas ela ainda como um anjo, poderia resistir alguns segundos ainda. A sua única chance seria abrir as asas para dar um empurrão naquele ser e depois voar para o portão.
Falta de ar. Artérias do pescoço fervendo ao toque da mão macabra. Dor de cabeça. Desespero. Foi isso que Lauren sentiu nos minutos que pareceram durar mais do que os séculos que ela passara naquele jardim até que uma mão com garras de águia transpassou o peito do demônio matando-o instantaneamente.
– Tsafon! Não!
– Não há espaço para dois demônios neste jardim! – disse a criatura com face de águia numa língua antiga, tão antiga quanto à dos anjos. – Que a fúria de Alastor seja o novo hino dessa terra! – e jogou o cadáver de Tsafon no chão.
Então uma caixa caiu dos céus, uma jaula, e dentro dela havia aparentemente um ser humano, um homem com um jaleco branco, cabelos pretos curtos e pele muito branca, na casa dos trinta anos de idade. Aquele era Alastor.
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